segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Adotar IA é simples. Governá-la para escalar com segurança será o verdadeiro diferencial

 

Por Sergio Hirase, CTO do Mycon*
 

A corrida pela Inteligência Artificial segue a todo vapor, mas tenho visto que a governança não acompanha o mesmo ritmo. Segundo o Relatório de Riscos e Prontidão para a IA 2026, produzido pela Netskope em parceria com a Cybersecurity Insiders¹, 73% das organizações já implementaram ferramentas de IA, enquanto apenas 7% contam com mecanismos de governança capazes de aplicar políticas de segurança em tempo real. O resultado é assustador: há um déficit estrutural de 66 pontos percentuais entre adoção e controle.  
 

Por isso, o desafio das empresas deixa de ser apenas incorporar a IA aos processos de negócio, mas garantir que ela seja utilizada de forma responsável, segura e alinhada aos objetivos da organização. A meu ver, a principal questão é estruturar processos, responsabilidades e uma cultura capaz de garantir que essas ferramentas gerem valor sem ampliar riscos. O que realmente destrava o potencial da Inteligência Artificial é uma agenda sólida de dados e governança, capaz de elevar a qualidade dos resultados e, principalmente, mitigar riscos e apoiar melhores decisões.
 

A governança de IA também pressupõe definir em quais situações a supervisão humana é indispensável e como garantir transparência ao longo da jornada do cliente, o conceito de Human in the loo.  Muitos podem pensar que isso seria criar barreiras à inovação, mas é exatamente ao contrário. A governança garante um crescimento sustentável. Adotar controles preventivos para proteger informações sensíveis, definir critérios claros para o uso da tecnologia e preservar a confiança de clientes, colaboradores e parceiros é o mínimo. Afinal, o valor da IA não está apenas na automatização de tarefas, mas em fazê-la com segurança, transparência e responsabilidade. 
 

No meio de todo esse cenário, eu sempre penso que o ponto de partida, que hoje é uma dor central para muitas empresas, é a falta de uma boa governança de forma ampliada. Modelos de IA são tão bons quanto as informações que recebem. Isso é fato. Por isso, antes de discutir algoritmos, agentes inteligentes ou novas aplicações, as empresas precisam garantir que seus dados sejam confiáveis, organizados, contextualizados e acessíveis, servindo de combustível de qualidade para essas ferramentas. Não adianta procurar por milagre.
 

A adoção da IA também depende da capacidade das equipes em utilizá-la de forma crítica e estratégica. E aqui entra um investimento fundamental: o letramento digital, pois garantir a participação humana nas decisões mais relevantes é tão importante quanto adquirir a tecnologia mais atual.
 

Na prática, esse equilíbrio já produz resultados concretos. No Mycon, fintech de consórcios da qual sou CTO, essa combinação reduziu em cerca de 87% o tempo médio de atendimento. Isso significa que se todo o processo durava, por exemplo, 10 minutos, ele caiu para pouco mais de 1 minuto. É uma queda considerável!
 

A tecnologia também trouxe ganhos significativos na análise documental e na liberação de crédito, reduzindo etapas manuais e acelerando processos. Entre 2023 e 2026, o volume mensal de imóveis entregues pelo Mycon mais que dobrou, com crescimento de 116%, enquanto o prazo médio de entrega caiu 32%. 
 

No segmento de veículos, o volume mensal de automóveis entregues cresceu 110%, o de motos aumentou 50% e o prazo médio de entrega dos automóveis foi reduzido em 17%. Esses resultados foram impulsionados pela automação, que permitiu processar informações, validar dados e digitalizar etapas antes realizadas manualmente, demonstrando que os melhores resultados dependem da combinação entre tecnologia, dados confiáveis e processos bem estruturados. E, claro, sempre com supervisão humana e um investimento robusto em equipes altamente capacitadas a lidar com tudo isso.
 

Em alguns momentos, a IA pode acelerar a jornada; em outros, seu papel é justamente identificar quando o cliente precisa do apoio de um especialista. Governança também significa reconhecer limites e compreender que determinadas decisões estão além da IA.
 

No mercado de consórcios, em que as decisões envolvem planejamento financeiro, aquisição de patrimônio e relações de longo prazo, a confiança é um elemento tão importante quanto a eficiência operacional. A IA pode até simplificar a jornada do cliente, mas isso só se concretiza quando há governança fortalecida. Para além de automatizar processos, o desafio é utilizar a IA para ampliar a transparência, apoiar decisões mais conscientes e fortalecer a relação de confiança entre empresas e clientes.
 

O maior risco relacionado à governança de IA hoje não é o excesso de controle, mas a ausência de visibilidade e direção. As organizações precisam saber onde, como e por quem a IA já está sendo utilizada. Uma governança madura começa pela capacidade de enxergar antes de controlar e de avaliar continuamente o apetite ao risco, bem como as responsabilidades do conselho, dos executivos e das demais lideranças.

À medida que a adoção da IA avança, ela deixa de ser novidade e a vantagem competitiva vai além do seu uso.  Como disse no início, a Inteligência Artificial começa pelos dados, pessoas e pela governança. Adotar IA é simples; governá-la para escalar com segurança será o verdadeiro diferencial das empresas.




Sobre o autor
 

*Sergio Hirase é CTO do Mycon e executivo com mais de 20 anos de experiência em tecnologia, dados e transformação digital. Ao longo da carreira, liderou projetos de modernização tecnológica, inteligência artificial e plataformas digitais em empresas como Itaú Unibanco, Autopass, Repom e Minuto Seguros (Creditas). É especialista em governança, inovação e IA, com formação executiva pela Kellogg School of Management (Northwestern University) e pela University of Texas at Austin.

Fonte da pesquisa
1.Relatório de Riscos e Prontidão para a IA 2026, da Netskope, em parceria com a Cybersecurity Insiders. Disponível em: Link


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